8 de Setembro, aquele dia…

Às vezes parece que foi ontem mas a verdade é que já passaram 13 anos, como é possível?! Parece que tenho vivido numa corrida de fórmula 1 em que cada volta à pista corresponde a um ano de vida e mesmo que queira reduzir a velocidade tenho a equipa toda a puxar por mim, faço-me entender? Aqueles 100 dias de confinamento em casa, vistos agora, parece que foram apenas uns segundos na box para mudar o pneu para depois voltar a arrancar a toda a velocidade.

De volta ao 08 de Setembro… Casámos neste dia, numa cerimónia civil e num final de tarde ameno. Caminhei de braço dado com o meu pai sob uma passadeira vermelha salpicada de flores, com os olhos abrilhantados pelas lágrimas e os ouvidos embalados pela melodia de Maria Léon. Ainda hoje, se fechar os olhos, consigo reviver esse momento.

2007
Photocredits: @vitornenofotografia

Alguns anos mais tarde, escolhemos este mesmo dia para batizar os nossos filhos e voltámos a ter um dia muito especial em família! Curiosamente em ambas as ocasiões acabámos descalços, desprovidos dos nossos sapatos caros mas com os pés a sentir o calor que imana do chão. Quem sabe o que o futuro ainda nos reserva para esta data tão especial!

Batizado 2019
Photocredits: @sergiosousa40033

Somos dos poucos casais do nosso círculo de amigos que ainda está junto e às vezes perguntam-me qual é o segredo. Nem sempre me dou ao trabalho de responder porque a resposta não é copiada de um excerto de conto de fadas. Poucos dias antes de casar o meu pai perguntou-me se eu tinha a certeza do que ia fazer? A minha mãe ficou chocada com a pergunta mas eu não. Respondi que era o que eu queria naquele momento e se não corresse bem tinha para onde voltar. Ou seja, eu sabia que podia correr mal, eu sabia que não é tudo maravilhoso, eu sabia que íamos discutir muitas vezes, mas também sabia que íamos crescer juntos, como pessoas e como casal. Mais tarde vieram os filhos, que embora sejam maravilhosos, desgastam qualquer relação, sugam-nos até à última por atenção e quando finalmente adormecem já nós estamos de rastos. E não pensem que melhora com o crescimento porque não melhora! Cada vez são mais exigentes nesse sentido. Programas só a dois deviam ser obrigatórios mas nem sempre são fáceis de fazer acontecer.

Associamos o 13 ao número do azar mas sabiam que em alguns países é encarado como número da sorte? É um número carregado de simbolismo que pode também significar renovação da paixão e da motivação e estou confiante de que será o nosso caso. A sensação que tenho quando páro para fazer o balanço dos últimos 10 anos, que é como quem diz da primeira temporada desta série que não é da Netflix, é a mesma de quando carregamos no botão do comando para andar para frente e depois não conseguimos parar e a série começa a passar tão depressa que de repente nem há tempo para disfrutar das pipocas. Mas agora para a próxima temporada que aí vem vou esforçar-me para assistir a cada episódio sem acelerar no comando e saborear as minhas pipocas uma a uma, até mesmo aquelas mais incomadativas que se agarram aos dentes, sabem?!

Tenho muitos planos para o futuro. Sinto necessidade de os ter mesmo sabendo que metade serão de difícil concretização. Não me imagino a viver sem eles. Não são planos materiais, são maioritariamente pessoais. Aprender a viver com o que se tem, desprendermo-nos do que não nos faz falta, não esperar muito dos outros e ter sempre planos para o futuro são as linhas com que quero cozer a minha vida para os próximos anos. Já informámos a criançada de que quando forem crescidos, assim do tipo autónomos, o pai e a mãe vão comprar uma autocaravana e andar por aí a passear. Só regressaremos para jantar no Natal e almoçar na Páscoa! Ficaram chocados a olhar para nós! Talvez sejam demasiado novos ainda para digerir este tipo de informação!!!

A todos aqueles que têm feito parte ativa dos nossos já muitos oitos de Setembro o nosso muito obrigado. Para os recém chegados à nossa vida espero que possamos aprender uns com os outros e acima de tudo rir, rir muito, rir até doer a barriga (lembram-se como era essa sensação? é que eu às vezes já não me consigo lembrar… ).

Entretanto lembrei-me de uma coisa e vou só ali tirar o vestido de noiva do roupeiro e ver se ainda me serve! Caso sirva, vou pô-lo ao ar e com sorte ainda o visto hoje!

Trash the Dress 2013
Photocredits: @rodrigpereira

Da Nazaré à Galé

Este tem sido um verão sem planos. Desconfinámos lentamente e carregados de receios. Sabiamos que estávamos a precisar de sair de casa, de nos aninharmos dentro da nossa casinha de bonecas num canto qualquer próximo da água mas não queríamos ir para longe por forma a regressar rapidamente caso fosse necessário. E a verdade é que cada vez mais temos optado por sítios próximos por forma a minimizar o tempo passado dentro do carro. Passo a explicar: ponto número 1, a velocidade de condução tem que ser reduzida porque o jipe vai a puxar um caixote enorme cuja aerodinâmica remonta aos anos 60 e este ano para agravar ainda acrescentámos 4 bicicletas no tejadilho achando inocentemente que iriam ter algum uso (fica aqui a dica sobre a importância de desmontar as campainhas das mesmas para evitar que aquele barulhinho aparentemente inofensivo se torne insuportável); ponto número 2, damos preferência ao ar natural em detrimento do ar condicionado, não por uma questão ecológica como seria bonito afirmar, mas sim para o esforço do jipe não ser ainda maior e o consumo do gasóleo não atingir valores históricos; ponto número 3, os miúdos ora têm fome ora têm sede e nunca nada daquilo que levo já preparado para o efeito é do seu agrado (graças a Deus têm uma  capacidade de retenção urinária bastante elevada); ponto número 4, nunca se calam, estão sempre a fazer perguntas e só adormecem em situações de cansaço extremo e ainda por cima o Duarte fala muito baixo o que faz com que, misturado com o barulho dos vidros abertos, seja muito difícil ouvi-lo, facto que o deixa extremamente enraivecido; ponto número 5, vou metade da viagem e a pedido do motorista de serviço a tentar de forma inútil acertar a posição dos espelhos laterais do carro. Agora façam um retrato imaginário disto por exemplo até ao Algarve ou ao Gerês sempre pela estrada nacional, esqueci-me de enumerar este ponto, já que pela auto estrada tratam-nos como camiões!

E foi neste contexto que pensámos em ir até à Nazaré. Inicialmente, e seguindo as tendências mais recentes do glamping, pensámos em ficar no “OHAI” mas como às vezes há males que vêm por bem fomos parar ao parque de campismo Orbitur Valado. Correu muito bem, um parque cheio de sombras, com pouco movimento e muitos cuidados de higiene associados ao contexto atual que vivemos. Claramente para regressarmos e em breve!

https://www.facebook.com/pages/Camping-Orbitur-de-Valado/339172953484198

Camping Orbitur Valado
Praia da Nazaré
Praia da Nazaré
Vista panorâmica sobre a Nazaré (Sítio da Nazaré)
Água geladinha!

A Nazaré não era um destino familiar para nós e revelou-se um sítio muito agradável. Ficámos apenas 3 dias com pena nossa já que ainda haviam algumas praias menos frequentadas na zona envolvente que gostávamos de ter ido conhecer. Fomos até São Martinho do Porto onde tropeçámos num projecto maravilhoso instalado junto à linha férrea, no largo dos comboios. Uma comunidade sem fins lucrativos, destinada a crianças, os “SuperHeroes4kids”. Se passarem perto parem lá por favor! Não julguem de fora, entrem e espreitem! É completamente fora da caixa e a energia que passam é tão positiva! Por sorte o fundador estava por lá e no seu sotaque pseudo português explicou-nos o projeto e nós não ficámos indiferentes. Se quiserem conhecer melhor espreitem a página de Facebook (link na foto em baixo).

https://www.facebook.com/superheroes4thekids/

Ainda houve tempo para ir espreitar a praia de Salir do Porto que embora tenha feito as delícias da infância de muitos nunca fez parte do nosso roteiro infantojuvenil! Para quem conhece a praia é fácil imaginar o quanto os miúdos adoraram subir e descer aquela que é a maior duna do nosso país. São 50 metros de rampa de areia e serão certamente mais 50 as formas possíveis de a subir e descer. Eu recorri às únicas exequíveis para mim…de gatas até acima e a rebolar até abaixo! Muitas vezes seguidas, até ficar a arfar e quase entrar em paragem cardiorespiratória! É uma praia também perfeita para a observação de lambejinhas, muito grandes e dignas de serem observadas! Para quem viaja de caravana ou autocaravana existe um parque privado mesmo encostado onde é possível pernoitar.

Duna de Salir do Porto

Da Nazaré seguimos para a Albufeira de Odivelas classificada como reserva ecológica natural e aí é que a porca torceu o rabo!!! (é assim que se diz não é???). O sítio é muito tranquilo e o parque está localizado à beira da barragem sendo possível estacionar quase dentro de água, que por sua vez é do mais quente que possam imaginar. Idílico mesmo! A verdade é que logo à entrada nos foi entregue um documento sobre o funcionamento do parque alertando inclusive para a possibilidade de existirem variadas espécies de bicharocos consoante a altura do ano. Confesso que nem dei atenção já que um bichito ou outro faz parte da natureza. O que não estávamos à espera era de uma convenção de carraças! Estavam por todo o lado e agarravam-se a tudo! Decidimos rapidamente que nos tínhamos que pôr a andar dali para fora. Ainda dormimos no parque nessa noite e por isso ainda nos foi possível contemplar um estonteante nascer do sol que quase nos convenceu a ficar. Mas não… a natureza é de facto fantástica mas de vez em quando convém que seja desparasitada! Estamos a falar de um parque pago e de uma questão de saúde pública.

Parque de Campismo Markádia
Parque de Campismo Markádia
Nascer do Sol – Barragem de Odivelas

E lá fomos nós a arrastar a casa de novo, desta vez até Melides. Ficámos no parque de campismo da Galé que já conhecíamos dos tempos do amor e uma tenda! O parque tem ótimas condições não há dúvida e a localização é previligiada uma vez que tem acesso e vista directa para o mar mas em relação aos cuidados associados à pandemia sentimos que havia mais teoria do que prática sinceramente, o que não nos deixou muito confortáveis durante a estadia. Ainda assim, e por preguiça de desmontar o arraial todo outra vez, acabámos por ficar mais algumas noites do que o inicialmente previsto. A praia é ótima, enorme, espaço para todos e mais alguns que viessem em cima da hora. Distância de segurança garantidamente mantida! Foram dias bons! Adoro assistir ao pôr do sol e arrastar os miúdos, o farnel e a garrafa de espumante talvez tenha sido a tarefa mais difícil daqueles dias. Não queriam ir jantar à praia, estavam cheios de birra e de má vontade mas no final adoraram a experiência. Comemos hamburgueres de sabe-se lá o quê embrulhados em pão de plástico e temperámos com batatas fritas de presunto. Lavámos as mãos no mar e brindámos às coisas simples! 

Praia da Galé
Pôr do sol – Praia da Galé

Quando o sol se pôs, arrumámos tudo na cesta e regressámos ao ninho. A noite anterior tinha sido difícil. Tinha chovido este mundo e o outro, de repente começou a trovejar e o vento a sacudir tudo à volta e sem que tivéssemos tido tempo de nada chovia torrencialmente. Há semelhança dos resgates no mar as mulheres e as crianças salvaram-se primeiro. Enfiámo-nos dentro da caravana enquanto o pai ficou cá fora a segurar as pontas para o toldo não vir abaixo e estragar os cacarecos todos. Adormecemos com a chuva ainda a bater nas janelas mas acordámos já com tudo a voltar à normalidade! O mesmo não se pôde dizer de quem estava a pernoitar em tendas…

Em jeito de fim de férias ainda tínhamos em mente ficar mais 2 ou 3 noites num parque em Setúbal com vista para a Arrábida mas os miúdos insistiram para que voltassemos para casa. Tinham saudades de casa e dos animais e acabámos por ceder. A verdade é que também sabe bem estar em casa, depois é claro… das 150 máquinas de roupa estendidas e dos 450 pêlos de gato aspirados. Tão bom aqueles 5 minutinhos de sossego que antecedem o discurso do “estamos cheios de fome e não há nada de jeito no frigorífico para comer” e que querem almoçar, lanchar ou jantar e é aí nesse momento que me apercebo que as férias terminaram e que a partir daí só resta começar novamente a contar os dias para o fim de semana!

100 dias depois…

Nem sei muito bem por onde começar a contar esta história, agora que está a chegar ao fim! Muito já se ouviu e já se leu sobre os efeitos desta nova pandemia na vida das pessoas mas o que eu quero contar é um pouco da minha experiência pessoal. Não pretendo de todo relativizar as consequências dramáticas que todos ouvimos nas noticias e que infelizmente alguns de nós sentiram na pele ou assistiram de perto. 

A nossa história começou a 13 de março e termina hoje, exatamente100 dias depois (um número certo, que embora tenha sido por mero acaso não deixa de ser digno de reparo). Treze de Março foi o dia em que tomámos a decisão familiar de que os miúdos não iriam mais à escola até percebermos o que é que se estava a passar. Podíamos até ter tomado essa decisão uns dias antes mas como tentamos sempre desdramatizar as situações, só quando começámos a sentir o peso da irresponsabilidade parental que podíamos estar a cometer e das suas eventuais consequências é que decidimos agir. Neste mesmo dia é anunciado na comunicação social o encerramento, daí a 3 dias, de todas as escolas do país no seguimento da pandemia provocada pelo novo coronavírus. E foi desta forma que demos início a uma forma diferente de vida familiar.

Com 2 filhos passei, literalmente de um dia para o outro, a ser mãe a tempo inteiro. Bolas, e que difíceis que foram as primeiras semanas…Não estive em teletrabalho, não tive prazos para cumprir, não recebi telefonemas urgentes, não tive que me trancar na casa de banho para responder a emails, não tive que subornar os míudos com quilos de chocolates e batatas fritas para se manterem sossegados, nem tive que trabalhar de madrugada enquanto eles dormiam e o computador estava disponível; e por isso mesmo parabenizo todos aqueles que o conseguiram fazer sem perderem grande parte da sua sanidade mental. Mas foi difícil na mesma, apenas porque eu não estava habituada a ser mãe desta forma. Não conseguia desligar do trabalho e dos colegas que tinha deixado para trás no hospital. Acompanhava as notícias na televisão de forma quase doentia e mesmo sem querer passava para os míudos a ansiedade que sentia. Durante as primeiras semanas canalizei todo o meu stress na limpeza da casa e “mariekondei” todas as divisões da casa. 

Mas com o passar das semanas fomo-nos habituando uns aos outros. Os miúdos ao acordar deixaram de chamar pela avó e começaram a chamar pela mãe, passaram da briga constante à brincadeira conjunta e eu comecei a aceitar que a minha “avaliação de desempenho” passaria pela capacidade de gerir a minha vida familiar. Contornar birras, contar histórias, dar mimo, assitir em loop ao mesmo filme de animação infantil, ajudar nos trabalhos de casa, cozinhar, fazer bolos e até pão, foram algumas das coisas que passaram a fazer parte do meu dia a dia. Reconheço que pode até ser ridículo para alguns pais e mães lerem isto por o terem como adquirido mas esta não era de longe a nossa realidade. Nem sempre correu da forma mais serena mas ainda assim o saldo é positivo.

 

Eu acho que se os meus filhos pudessem escrever uma carta à “Covid19” seria mais ou menos assim: 

“Sra. D. Covid queremos agradecer-lhe o facto de nos ter proporcionado uma mãe a tempo inteiro. Foi muito bom pudermos adormecer sabendo que a nossa mãe estaria ali quando acordássemos. Sabia que o meu irmão até passou a dormir melhor e já não acorda durante a noite? Mesmo quase sem sairmos de casa durante todos estes dias foi divertido porque fizemos muitas coisas diferentes. Deixámos de contar os dias que faltavam para o fim-de-semana, acampámos várias vezes no nosso quintal com a nossa caravana, pudemos usar tintas e plasticinas dentro de casa e a mãe até conseguia contar histórias sem bocejar a cada frase nem adormecer a meio do livro. E mesmo quando o papá chegava a casa do trabalho não tínhamos que nos despachar à pressa como quando tínhamos que ir para as atividades. Às vezes quando o pai chegava íamos todos andar de bicicleta ou ficávamos só a brincar. Foi muito bom! Percebemos pelas conversas dos meus pais, e porque agora temos que andar sempre de máscara quando saímos, que não deves ser boa rés Sra D. Covid mas para nós que somos apenas crianças, e até à data, não passa de uma doença provocada por um bicharoco invisível que chegou para acalmar as nossas vidas. Não fique chateada mas agora já chega. Temos saudades da escola de verdade, de brincar com os nossos amigos e de dar beijinhos a sério aos avós e por isso gostávamos que fosse embora e de preferência sem passar perto das casas dos nossos avós.

Cumprimentos dos manos,

Marta e Duarte.”

Pois é, a perspectiva das crianças é sempre muito diferente da nossa e ainda bem. Amanhã começo a trabalhar novamente e com isso regressam muitas das rotinas anteriores. Vamos ver o que o futuro tem reservado para nós mas estou certa de que estes 100 dias (ou 2400 horas que quisermos analisar de uma outra perspectiva) serviram para alguma coisa. Dizem que pode existir uma nova vaga da doença depois do verão e que as escolas podem não abrir em setembro mas estou confiante que vamos todos ser adultos responsáveis e vamos contrariar essas suposições. Se pudesse voltar atrás no tempo é claro que apagava o capítulo da Covid19 da vida de todos pelas consequências terríveis que se fizeram sentir em diversas áreas e acima de tudo pelas mortes que causou e infelizmente ainda irá causar. 

Este foi apenas um testemunho que quis deixar e diz respeito exclusivamente à forma como este período de confinamento alterou as nossas vidas. Vale o que vale, uma história para guardar na gaveta, uma carta na manga, para ler e reler cada vez que sentir que estou novamente a pisar a linha, a pesar mais para um dos lados da balança achando (erroneamente, agora sei) que ela se consegue equilibrar sozinha.

Marta seria o seu nome.

16 de Março de 2020, há 9 anos atrás nascia a nossa primeira filha. Marta seria o seu nome. Já estava escolhido há muito tempo, muito antes de pensarmos a sério em ser pais, naquelas conversas que os casais de namorados têm quando acham que é para a vida toda.

Chegaste para assentar a poeira da relação. Foste crescendo dentro da minha barriga quase sem darmos por ti, não fosse aquela minha cara de varicela que nem com 3 camadas de base disfarçava. Entre horas sem fim de trabalho, duplos aqui e acolá para ganhar mais uns trocos (quem trabalha na saúde sabe do que falo), correrias nos transportes públicos, horas seguidas sem comer, foste crescendo sempre bem e saudável. Estava planeado nasceres na manhã do dia seguinte, numa simpática cesariana, já que essa coisa de ficares de cabeça para baixo toda despenteada nunca foi para ti. Mas afinal apeteceu-te vir umas horas mais cedo só para abanar a nossa tranquilidade. Sem o pai por perto nesse final de tarde e a achar que não havia motivos para alarme fui só dizer um olá ao pessoal da maternidade. Obviamente que já não sai de lá, eu e a minha amiga Maria tão ou mais grávida do que eu. Foi tudo muito rápido, e à semelhança de um bom argumento, o pai chegou ao pé de nós mesmo a tempo de acolher-te nos braços.

Viemos para casa 3 dias depois, no dia do pai. Chorei desalmadamente quando entrei à porta e ainda hoje não sei porquê. Perturbações hormonais certamente, ou então a incerteza do que fazer contigo a partir daquele dia. O problema do primeiro filho é esse mesmo. As incertezas, as opiniões de todos, a pressão em cima de nós, a falta de espaço para respirar fundo.  Devia haver uma norma que proibisse tudo isto ou então apenas um pouco mais de bom senso alheio!

O tempo foi passando e foste crescendo de forma pacifica. Estou certa de que há coisas que nascem connosco e não há volta a dar. Mal sabias andar e já calcavas e descalças sapatos num piscar de olhos. Veste e despe com destreza máxima. Desde muito pequena que escolhes o que vestir, sempre a condizer, de uma forma bem mais elaborada do que eu o faria ou até do que a minha paciência o permitiria.

Tenho que assumir que vieste numa altura em que o trabalho estava no topo das prioridades. Manhãs juntas só ao fim de semana e muitas noites já dormias quando chegava a casa. Foste filha única até aos 4 anos e ainda hoje isso se reflecte nos ciúmes que tens do teu irmão. No jardim de infância a educadora dizia muitas vezes que se notava claramente que eras uma criança estável e feliz e eu pensava para mim “será mesmo?!”. Quando entraste para a escola as tuas aptidões tornaram-se evidentes para nós. Não és a Ada Lovelace da matemática, embora cumpras o teu papel, mas és a Ann Makosinski das criações. Essa cabeça está sempre a inventar e a criar. Essas mãos estão sempre a pintar e a recortar. Uma coisa podemos assegurar com conhecimento de causa: quanto menos derem aos vossos miúdos mais eles vão estimular a própria criatividade. Não sei o que o futuro te reserva mas quase que aposto que passará pelo mundo das artes.

Quando o Duarte nasceu tinhas 4 anos e foste uma super irmã. Muito atenta e cuidadosa, uma instinto maternal de topo. Quando te vejo a brincar com as bonecas e a cuidar tão bem delas como se fossem bebés de verdade penso que talvez até estejamos a fazer um bom trabalho. Hoje fazes 9 anos e o teu maior sonho é receberes aquela boneca pirosa que “parece um bebé de verdade”.  Sabemos que em breve vais deixar de querer bonecas e vais passar a ser mais exigente, vais substituir os teus abraços por um olá mal humorado (o que até já vai acontecendo de vez em quando), vais deixar de querer adormecer na nossa cama para ficares sozinha no teu quarto, mas até lá vamos aproveitar. Uma coisa é certa, no que a nós pais disser respeito e contra todos os julgamentos, vamos prolongar a tua infância até não dar mais.

Este ano não há festa! Tínhamos planos maravilhosos! Mas não pudemos. Estamos em casa, numa espécie de recolher profilático para o bem de todos. Sorte a nossa que temos espaço ao ar livre! Tenho o coração apertado enquanto escrevo porque não sei o futuro. Não aquele futuro a longo prazo mas o amanhã, o para a semana, o para o mês que vem. Ainda há quem ache que estamos loucos, mas sabem…as únicas pessoas que me agradam são as que estão loucas, loucas por viver, loucas por falar, loucas por salvarem-se (Jack Kerouac).

Sabes filha, sonha sempre alto. Podes ser o que quiseres desde que lutes com garra. Não vás em grupos com os quais não te identificas, cria os teus. Não faças o que achas que não está certo, mostra a tua opinião. Não te importes de ficar sozinha em determinadas alturas, amanhã será sempre um novo dia. Quando fores crescida queremos que te recordes com alegria das nossas aventuras, do monstro dos beijinho, do pão de fio, do mealheiro que fizemos para dares a volta ao mundo. E quando fores dar essa volta lembra – te que terás sempre aqui o teu lugar no regresso. Mas por agora, de volta ao presente, vamos continuar por mais alguns dias, ou semanas quem sabe, resguardados em casa. A todos os que não o podem fazer e a todos os que estão na linha da frente o nosso muito obrigado.

Hoje o brinde é exclusivo para ti filha mas estou confiante que daqui a uns meses iremos todos às varandas em simultâneo fazer um enorme brinde nacional, em jeito de comemoração pelo fim desta história tão mal contada.

Moeda de troca

Já não escreves nada há tanto tempo!!! Ouvir este comentário deixa-me um pouco desnorteada porque na verdade não consigo escrever por obrigação nem me posso dar ao luxo de me isolar num bungalow à beira mar à espera que a inspiração venha. Até porque, há toda uma operação de caça ao piolho a decorrer na nossa casa há várias semanas e todos os bocadinhos são passados a inspeccionar cabeças com a minha super lanterna de mineiro na testa! Ajuda imenso fiquem já a saber…

Mas de volta ao que me faz hoje regressar à escrita. Na verdade o que me inspira para escrever é a vida real, as coisas que vejo acontecerem à minha volta. Acho que se tivesse que escrever uma história inventada por mim não seria capaz por este motivo mesmo. Bem quer dizer, talvez isolada no tal bungalow à beira mar fosse capaz! Era uma questão de experimentar!!!

Em tempos aconteceu-me uma peripécia engraçada. Utilizo a rede de transportes públicos quase diariamente sendo portadora do respectivo passe mensal para o efeito e não tendo nunca, por isso, que me preocupar se tenho ou não dinheiro comigo para o bilhete. Acontece que às vezes resolvo apanhar o comboio numa estação não abrangida pelo tal passe e nesses dias tenho que comprar o excesso do bilhete com o revisor dentro do comboio. Pois bem, aqui a pessoa entrou no comboio e já depois de ele arrancar percebeu que não tinha a carteira… Pânico imediato pois toda a gente sabe a simpatia que caracteriza os revisores da cp (há excepção daqueles que me perguntam se é bilhete com desconto jovem, esses a meu ver mereciam claramente uma promoção). Já me imaginava a ter que sair na próxima estação, no meio do nada às 6h30 da manhã, com a multa debaixo do braço e a vergonha estampada na cara. Pensar rápido foi a solução. Atirar-me da janela não era viável, trancar-me na casa de banho também não porque eles fazem espera às pessoas, explicar a situação e implorar compaixão a outro passageiro era uma opção mas para quem não sabe as pessoas que apanham estes comboios tão cedo para irem trabalhar vão o caminho todo a dormir com a cabeça pendurada e acordá-los do sono profundo pode ser arriscado. Felizmente entraram umas senhoras comigo na mesma estação e foi a elas que recorri. Na pior das hipóteses elas achariam que eu era mais uma dondoca na ruína mas paciência. As senhoras de facto foram extremamente queridas, não só me emprestaram a moedinha para o bilhete como me queriam dar mais para eu puder tomar um cafezinho, o que só veio reforçar a minha teoria do que elas estariam a pensar sobre a minha pessoa naquele momento. Serviu-me de lembrete de que nunca sabemos de quem precisamos e às vezes a pessoa mais improvável é quem te vai valer no momento certo. E assim foi! Dias mais tarde voltei a encontrar a senhora e devolvi-lhe a quantia, colocando assim uma pedra no assunto.

Mas na verdade esta história que acabei de contar era para chegar ao episódio que presenciei hoje e que me deixou atónita com a falta de sensibilidade das pessoas, dentro ou fora da cidade. Hoje apanhei o tal comboio não abrangido pelo passe e comigo entrou também uma jovem adolescente que pelo vistos não tinha o dinheiro suficiente para o dito bilhete. Não me apercebi de imediato do que estava a acontecer porque estava mais atrás mas comecei a achar que aquele rigozijar do revisor tinha água no bico. O senhor estava a fazer o trabalho dele é certo mas às vezes fico com a sensação de que eles têm algum prazer maléfico em mostrar o pseudo poder que acham que têm naquele momento…enfim. A miúda estava nervosissima sem saber o que fazer, percebi que a falta de moedas não foi de todo intencional (onde é que eu já tinha visto isto!) e não pude obviamente deixar de interferir. Dirigi-me a ela, perguntei o que se estava a passar, de quanto precisava e dei-lhe o dinheiro para a mão. Não a conheço, nunca a tinha visto e provavelmente não vou voltar a ver até porque não fiz questão de não lhe fixar o rosto.

O engraçado disto é que comportamento gera comportamento e enquando estava a vasculhar a minha mala à procura do porta moedas de repente as pessoas que estavam sentadas ao lado da jovem, que até ao momento não tinham mexido uma palha, também já procuravam ou fingiam procurar (o que encaro já como manifestação de algum grau de sensibilidade) as suas carteiras.

O facto de já ter estado na mesma situação gerou claramente em mim um efeito imediato de empatia mas mesmo que não tivesse sido esse o caso garanto que não mostraria nunca a mesma indiferença a que assisti. Que rumo é este que estamos a levar? Nunca temos tempo ou paciência, ninguém se preocupa com ninguém. Eu própria tenho muitos momentos em que me encaixo perfeitamente nesse perfil e até para os de casa (acho que) não tenho tempo nem paciência. Estou a tentar melhorar e acho que estou a conseguir.

Sabiam que há vida para alguém do nosso umbigo?!

Dom Guimarães

De há uns anos para cá que fazemos do período entre o natal e o ano novo as nossas férias mais desafogadas. Como fazemos anos a 27 e 28 de Dezembro o lema é somar mais um ano de barriga cheia. Bem, na verdade são só 3 ou 4 dias, habitualmente na zona centro ou norte de Portugal e em hoteis ou pousadas que raramente ultrapassam as 4 estrelas e que com um piquinho de sorte incluem piscina interior. Contudo, o que interessa é que não há cá preparar pequenos almoços, fazer camas ou arrumar cenas variadas. Nada disso! É só acordar e puder disfrutar logo de um belo pequeno almoço e, mesmo que no meu caso pessoal seja quase sempre pão com manteiga e um belo café, compreendo a loucura com tanta variedade e bom aspecto da oferta. Nestes dias é um entra e sai em restaurantes e os miúdos têm autorização para beber ice tea até desmaiar… Mais a Marta neste caso, uma vez que os restaurantes não fornecem leite de arroz às refeições e o miúdo ou é isso ou água. E escusam de pensar que foi influência gestacional porque eu nem nunca tinha provado semelhante coisa. Na melhor das hipóteses farinha de arroz para engrossar o puré de batata instantâneo, agora leite???


Ora bem, então a escolha deste ano recaiu em Guimarães! E que rica ideia tivemos! Já há algum tempo que queriamos lá ir mas acabava sempre por ficar para segundo plano. Confesso que não foi fácil arranjar um hotel com uma boa relação preço qualidade nesta época do ano, até porque a fasquia vinha alta dos anos anteriores. Marcámos em Setembro e já havia muita coisa cheia. Fiquei a saber mais tarde por quem percebe do assunto que a oferta hoteleira não é muita para a procura atual. Existe muito alojamento local mas hotéis nem por isso. Os bons hotéis eram de facto extremamente caros e os mais acessíveis não eram grande coisa. Acabámos por ficar instalados no Hotel Fundador (nickname do D. Afonso Henriques e que tanto pode dar nome a hoteis como a oficinas de automóveis). O hotel não é de todo espetacular mas percebe-se que estão a tentar melhorar. É um edifício muito alto com uma vista magnifica da sala de refeições. Vale a pena fazer uma visitinha ao bar só para ter a panorâmica da cidade. Esteticamente desenquadrado em altura do resto da zona histórica (diria até do resto da cidade) e ainda com muita coisa a melhorar, há que dizer que o que já está remodelado está mesmo muito bom. O quarto era ótimo, espaçoso e muito clean, já a casa de banho está mesmo a precisar de um refresh que acredito esteja nos planos. Ficámos instalados no sétimo andar (infelizmente com apenas 1 dos 2 elevadores a funcionar) e por isso podem imaginar a vista do quarto (mas só mesmo imaginar porque não tiramos nem uma fotografiazinha).

Assim que chegámos à cidade fomos logo à procura de sítio para almoçar. Foi só descer a rua do hotel que demos com o Bar Danúbio. Não se deixem enganar pelo nome suspeito porque lá dentro transforma-se em Pregaria de Guimarães. Simplesmente delicioso! Espaço muito pequeno, com uma esplanada igualmente pequena mas tudo muito bem confeccionado e ainda por cima com preocupações ambientais. O único senão poderá ser o cheiro a comida com que se sai de lá! A muito custo resistimos ao chamamento da sesta e seguimos para o centro histórico. Tantas esplanadas, tantas pessoas, tantos edifícios bonitos. “Aqui nasceu Portugal” está logo escrito à entrada do centro histórico para que não hajam dúvidas! Não temos por hábito fazer grandes tours pelo interior dos monumentos, gostamos mesmo é de estar nas esplanadas a ver as pessoas que fazem parte dos sítios. Os miúdos fartaram-se de correr e brincar mas pracetas enquanto nós nos aqueciamos com vinho do Porto. Mesmo sem grande espaço para mais comida acabámos a jantar no Cantinho dos Sabores. É mesmo um cantinho, um restaurante minúsculo onde nós tivemos a sorte de arranjar mesa e ainda bem. Mais uma vez comemos divinalmente e nem digo quanto pagámos porque ninguém iria acreditar! Vai mudar de gerência entretanto mas esperamos que não mude mais nada. Recomendamos totalmente!

Dia seguinte foi dia de festa para o mais velho da família. Foi um acordar muito efusivo com muitos braços pendurados no mesmo pescoço. 42 Invernos já lá cantam! O plano era visitar o castelo. Demos a volta primeiro pelo paço dos duques e de seguida pelo castelo. São visitas independentes mas o bilhete compensa a visita a ambos. Os miúdos não pagam e os adultos pagam 3.50 euros cada. A casa dos duques está muito bem conservada com os quartos e as salas montadas e os miúdos adoraram ver. O castelo também é imponente mas eu como tenho aquele problema de achar que os miúdos vão escorregar a qualquer momento é sempre um stress e só descanso quando chegamos cá abaixo e preferência próximo da porta da saída, para além de parecer louca sempre a mandá-los sair de cima das coisas. Visita terminada, espada e coroa compradas, estava na hora de ir em busca de almoço. Somos parar ao Dona Maria e desengana-se quem for ler os comentários do tripadvisor, especialmente aquele que refere que a sangria é só sumo, porque à custa disso eu ia saindo de lá de gatas. Valeu-me o poder de absorção da alheira em cama de grelos. Os miúdos nesta fase já estavam hipertensos com tanta batata frita ingerida. Se ao almoço foi assim ao jantar não foi melhor… Já cá estou! Ou melhor vem andando que eu “já cá estou”. É o “trick name” de mais um pequeno spot gastronómico maravilhoso gerido por uma personagem  extremamente engraçada. Como Portugal é pequeníssimo e Guimarães está na moda (logo a seguir às Maldivas e a Bordéus) acabámos a jantar entre amigos o que só acrescentou pontos ao momento!

Então não é que no dia a seguir era outra vez dia de festa! Percebem agora a canseira que é esta casa nesta altura do ano! Toca a acordar cheia de braços à volta do pescoço sem a mínima hipótese dos usufruir dos meus 5 míseros minutinhos de mau humor matinal. “Sim meninos a mãe está muito feliz de fazer 38 anos…”

O mapa já tinha sido traçado na véspera e tinha como destino final Braga. Mais uma bela surpresa, uma cidade cheia de pessoas nas ruas, esplanadas a abarrotar e um sol maravilhoso que aquecia até os corações mais gélidos. De volta a Guimarães e com o sol já quase a ir embora ainda fomos a tempo de dar uma espreitadela no monte da penha. E que sítio magnífico aquele! Do miradouro consegue-se ver até ao infinito. Descendo umas minúsculas escadas entramos num local inóspito, a gruta Ermida da Senhora do Carmo, um pequeníssimo local de devoção construído entre dois penedos e onde podemos também encontrar uma imagem do Santo Elias, padroeiro do sono, desconhecido para mim até aquele momento mas com quem rapidamente tentei que os meus filhos travassem amizade (“vá meninos dêem lá uma festinha ao santinho porque aquela senhora ali diz que os meninos dela passaram a dormir até ao meio-dia”). À parte a brincadeira a verdade é que dentro daquela gruta invade-nos uma sensação de paz que tenho a certeza atingiria até os menos crentes.

Gruta Ermida da Senhora do Carmo

Descendo a pé o caminho desenhado por entre os penedos e as árvores adivinham-se cerca de 3 quilómetros de uma natureza simplesmente magnífica. Um trilho capaz de curar todos os males, de limpar todas as cabeças e de carregar até as baterias mais fracas e onde quero  certamente voltar, equipada a rigor, para usufruir e comtemplar cada centímetro daquele caminho. Com os últimos raios de sol a espreitarem por entre os ramos tivemos que voltar para trás mas a sensação que trazia era como se tivesse feito um detox interior. Mas foi sol de pouca dura… rapidamente o detox interior foi substituído por alheira, arroz de feijão, pataniscas, queijo e presunto. Tudo regado com bom vinho verde na minúscula taberna do trovador. A esta altura do campeonato já me questionava porque motivo todos os restaurantes a que íamos eram efetivamente minúsculos. Se seria apenas coincidência ou algum fenómeno paranormal  que me estaria a escapar!

Monte da Penha

A manhã seguinte foi dia de despedidas. Dissemos adeus a Guimarães mas com pouca vontade de regressar a casa acabámos por aceitar o convite para uma visita rápida a Amarante. Embora tivesse sido só de passagem pareceu-nos um cidade bem simpática! Sem mais margem para esticar o dia tivemos mesmo que nos fazer à estrada e foi com muita sorte que a malta mais pequena adormeceu e parou de cantar porque não sei mesmo como íamos aguentar a viagem…Só parámos em casa e só aí é que voltaram a abrir os olhos, abençoados miúdos… (ou terá sido obra do Santo Elias?)

Desejos sinceros para 2020

Estamos na reta final. Está a acabar o ano de 2019, a década de 10 e os meus 37 também estão mesmo a queimar os últimos cartuchos. Foi um ano diferente. Da caravana ao blogue foram ambas apostas impulsivas. Desejos antigos que num piscar de olhos se tornaram realidade. Para o ano que aí vem os planos continuam. Uns mais sérios, que não interessam para nada agora, e outros que achei que devia partilhar aqui. Temos direito a 12 desejos não é? Então se é para comer aquelas passas horrorosas é bom que seja por uma boa causa.

Desejo número 1: todos os anos digo que vou fazer isto (eu e mais centenas de mulheres tenho a certeza) e depois nunca faço… Deitar fora todas as cuecas com elásticos frouxos que vão ficando no fundo da gaveta na esperança de ainda virem a fazer falta. Deste ano não passam!

Desejo número 2: gritar menos com os meus filhos, nem que para isso tenha que me inscrever num grupo de mães loucas anónimas.

Desejo número 3: acordar todos os dias com o primeiro toque do despertador sem carregar uma única vez na tecla “só mais 10 minutos por favor”.

Desejo número 4: não usar meias rotas nem que seja só com um buraquinho.

Desejo número 5: ser mais tolerante para com as pessoas que não respondem ao meu bom dia tão esforçado (e tantas vezes depois de uma noite mal dormida).

Desejo número 6: não me esquecer dos dias das reuniões da escola dos miúdos, assim como de ver e  assinar todos os recados das respectivas cadernetas.

Desejo número 7: não prometer coisas aos meus filhos que sei que não vou cumprir só para que se calem um pouquinho.

Desejo número 8: começar a fazer desporto (sei que é pouco provável mas todos os anos faz parte da lista de desejos)

Desejo número 9: deixar cair o pano das emoções e furar a bolha para me impede tantas vezes de respirar fundo.

Desejo número 10: aproveitar todas as oportunidades para serigaitar em família na nossa caravana.

Desejo número 11: ver o sozinho em casa (nota para o 1 ou o 2 apenas) no dia de Natal na companhia da minha família e rir como se o estivesse a ver pela primeira vez.

Desejo número 12: aproveitar todas as coisas boas que ainda estão por vir.

Vem aí um novo ano e uma nova década. Os meus votos para todos é que sejam felizes, façam o que gostam sem pensar no que os outros possam achar de vocês e respeitem o próximo como gostariam de ser respeitados. E quantos a vocês “38” podem vir que eu já tenho a garrafa a respirar! Bem, quer dizer.. o melhor é abrir já duas porque antes ainda teremos que brindar aos “42” do senhor organizadinho cá da casa!

Encontramo-nos em 2020!!!

Síndrome da Prenda Única

Agora que o Natal está a chegar senti necessidade de falar desta que é uma síndrome sazonal que afecta maioritariamente a população nascida entre o dia 15 de  Dezembro e o dia de Reis. Bem certo que estou incluída neste grupo, nascida 3 dias depois do menino Jesus e desde que me lembro de ser gente que sofro desta síndrome, embora os sintomas se tenham vindo a dessipar com o passar dos anos por razões ainda desconhecidas (ou talvez apenas porque a partir de uma determinada altura deixas de receber presentes, seja Natal ou dia de anos).

Pessoas com filhos, enteados, sobrinhos, filhos de amigos ou quaisquer outras crianças próximas nascidas neste período, pela vossa rica saúde não oferecam um presente e digam naquela voz fininha com que os adultos gostam de se dirigir às crianças: “é um presentinho maior porque é referente ao aniversário e ao Natal!”. MENTIRA! Nunca é!!!! Falo com conhecimento de causa… Tenho um irmão que faz anos em Março e por isso sei do que falo! Para além do facto de que capricórnio que é capricórnio gosta de fazer tudo certinho e por isso se é Natal é para abrir no Natal, se é aniversário é para abrir no aniversário. Então como é que fazemos???

Uma das minhas estratégias enquanto criança era guardar alguns presentes para abrir no dia 28 e fazer de conta que eram referentes ao aniversário! Sim, eu sei… nos dias de hoje talvez fosse considerado indício de desvio comportamental mas era de facto importante para mim!

Como se não bastasse esta questão ainda se colocava outra não menos importante na altura. Fazer anos nas férias do Natal…Sem qualquer hipótese de cantar os parabéns na escola com os amigos como quase todos os outros. O bolo até podia ir no primeiro dia de aulas de Janeiro mas não era a mesma coisa. Já nem o ano era o mesmo!

Depois fui crescendo e começando a dar menos importância a estas questões de calendário! E quando já estava quase curada do facto de fazer anos 3 dias depois do natal e 3 dias antes da passagem do ano, numa dualidade entre a digestão que ainda não se fez e a dieta que já se começou, sem espaço nem para uma fatiazinha de bolo que seja, chega o meu marido e arremata todas as minhas esperanças. Então não é que o dito cujo faz anos a 27 de Dezembro!!! Nem mesmo com os deuses todos unidos a meu favor!

Estamos a entrar em Dezembro, durante anos um dos meus meses favoritos de sempre. Não há outra forma que não esta meio lamechas de dizer que Dezembro para mim simbolizava ter a família toda reunida e não falo de tios ou primos, falo mesmo só de nós os 4 (pai, mãe, irmão e eu). Lá em casa os presentes apareciam por magia debaixo da árvore de natal (maravilhosamente decorada com pedaços de algodão a fazer de neve) na manhã do dia 25 e por isso assim que os primeiros raios de luz atravessavam o estore estava na hora de sair da cama. Mesmo descobrindo mais tarde que afinal sempre estiveram guardados no roupeiro do corredor não tinha importância. Era surpresa e nós vibravamos com aquele momento. A minha mãe não nos obrigava a vestir a rigor e por isso podíamos passar o dia todo de pijama a brincar com o que tinhamos recebido.

Agora Dezembro significa montar uma árvore de Natal com 2 metros de altura (devia estar louca), correr os supermercados todos em busca das melhores campanhas de brinquedos, ajudar na elaboração da carta ao pai natal (de forma estratégica para que escolham coisas possíveis de comprar sem ter que vender um rim), fazer trabalhos imaginativos para as escolas dos miúdos (que esgotam a imaginação de qualquer um), ter a cozinha cheia de panelas e tachos e pirex por tudo quanto é lado, procurar a toalha de mesa do Natal que teima em desaparecer sempre de um ano para o outro…

Vamos lá então para mais um Dezembro, mais um Natal, mais 2 aniversários, uma passagem de ano e no instantinho estamos em 2020 e começa tudo de novo!

Hoje é o teu dia Duarte!

Já não escrevo há muito tempo…tenho andado ocupada com os meus 7 ofícios (ortoptista, mãe, encarregada de educação, dona de casa, mulher, filha, amiga). Mas esta é uma semana especial e há muito tempo que ando a magicar como colocar em palavras o significado deste dia! Não gosto de lamechices e também não sou de grandes demonstrações físicas de afecto (para tristeza do meu marido que é exatamente o oposto) mas não há como falar deste dia sem que o queixo me trema e os olhos brilhem. Faz hoje 4 anos que nasceu o nosso Duarte! Um nome que sempre gostei e que acabou por ser escolhido em jeito de homenagem a um avô que não chegou a sê-lo.

Era fim de semana, sábado, e assim que acordei percebi logo que não ia passar daquele dia. Estava de 39 semanas e meia. Exatamente o mesmo tempo de gestação da Marta. Sempre tão previsível… Não disse o que estava a sentir a ninguém. Todos tinham a sua vida de fim de semana programada e eu já tinha planeado ficar por casa com a Marta o dia todo. Deixei o pai sair de casa, sabendo que desta vez não ia estar longe, e começámos a prometida saga de puzzles. De vez em quando lá ia sentindo a barriga a apertar como quem diz… vai-te preparando barriguda!

Já era a segunda temporada da peça da minha vida mas na primeira a miuda estava sentada (certamente para não correr o risco de nascer despenteada) e eu fiquei só no camarote a assistir. Só que desta vez sabia que ia ter um papel importante à minha espera. Não queria ir cedo demais para não ter que ficar na fila da bilheteira e por isso fui-me deixando ficar por casa, a mimar a primogénita naquele que seria o seu último dia como filha única!

Já era final de tarde quando achei que estava na hora de ir. O pai já estava de regresso a casa, a filhota ia passar a noite a casa dos tios e a barriga cada vez apertava mais… Não dissemos a ninguém o que estava para acontecer. Para quê gerar confusão na família que nada mais poderia fazer se não atrapanhar ligando de 5 em 5 minutos… Agarrámos nas malas e fomos tocar à campainha da maternidade! A noite estava a começar e não fazia ideia que seria tudo assim tão rápido. Em menos de uma mão cheia de horas dilatei, penei e coloquei cá fora um ser maravilhoso! Não tenho memória visual de quase nada curiosamente… A última coisa que vi foram os degraus da marquesa e as paredes do bloco de partos a fazer lembrar uma arca congeladora gigante. Assim que consegui deitar-me na marquesa accionei aquele que percebi mais tarde ser o meu mecanismo de defesa para situações SOS (Sem Oportunidade Sair!): Fechei os olhos!!! (Já o tinha feito em miúda quando tive a infeliz ideia de me enfiar na montanha russa da EuroDisney e achei que não ia sair viva de lá!)

Durante aqueles minutos, e sabendo que o meu marido estava mesmo atrás de mim, demos o nosso melhor, eu e aquela equipa fantástica de mulheres à minha volta. São momentos tensos, em segundos tudo pode correr mal e elas sabem disso. Não estão ali para falinhas mansas e ainda bem porque às vezes é preciso ouvir um ralhete. Também o fazemos com os nossos filhos e dizemos que é para o bem deles!

Contra todas as expectativas, senti-me acarinhada naquele momento por aquela equipa. Senti os calos apertados quando ouvi que era a última tentativa e a seguir ventosa. Enchemo-nos de coragem (num trabalho de equipa entre mãe e filho) e arrumámos o assunto. Parece que em cima da hora lhe apeteceu vir em modo super herói com um braço esticado à frente e a capa de super homem demasiado apertada no pescoço e foi por isso que, ainda sem coragem de abrir os olhos, questionava por não ouvir chorar. Foram segundos inofensivos mas pareceram horas diabólicos e quando finalmente ouvi chorar ganhei coragem, abri os olhos e achei que de repente tinha novamente a Marta recém nascida nos meus braços. Exatamente iguais!!!

Entretanto já passaram 4 anos! Como descrever o Duarte?!

Bem…claramente demasiado agarrado à mãe, mimadissimo, teimoso que dói, extremamente afetuoso dentro do seu nicho e um pouco intempestivo. Só bebe água ou leite de arroz. Adora ovos mexidos, douradinhos e arroz do pai. Precisa de saber como vivem as formigas, gosta de sapatos sem atacadores para não ter que pedir a ninguém para atá-los, tem pena de não saber ler e já teve a coragem de dizer mais vezes a palavra amo-te em 4 anos do que eu em 37. Não sabe o que é ser filho único e por isso partilha sem questionar.

Todos temos o nosso dia e hoje é o seu dia! Todas as atenções são para ele! Que a vida te sorria sempre meu Duarte! E não te preocupes porque hás-de crescer e consequentemente aprender a ler e a atar os sapatos mas por favor nunca deixes de dizer “amo-te”!


“Já estás pronto? Ok, então vamos lá à escola cantar os parabéns com os teus amiguinhos!”

Sindrome da bipolaridade maternal

Descobri muito recentemente que devo sofrer de uma síndrome que no meu caso se caracteriza por uma alteração repentina das regras familiares estabelecidas cá em casa e que é muitas vezes acompanhada também por mudança súbita de humor, em particular da mãe (não estão incluidos fatores hormonais). Falo da SBM: síndrome da bipolaridade maternal.

Passo a explicar… Há dias em que acordo até bem disposta e penso: “hoje vai ser uma manhã tranquila, vou acordar os meninos, vamos comer umas torradinhas, ninguém vai acender a televisão e vamos chegar a horas à escola”. Pois bem…e se de repente o mais pequeno começasse a gritar a alto e bom som que está cheio de fome mas que não quer torradas, nem leite (de vaca, arroz, aveia, coco, amêndoa ou qualquer outra mistura improvável) , nem iogurte, nem panquecas (neste caso ainda bem porque também não as ia fazer), nem nada do que possa existir no frigorífico, na despensa ou até quem sabe perdido na lancheira do dia anterior. É claro que há imediatamente uma mudança brusca de humor em mim. Entretanto ligo a televisão para tentar outra abordagem mas alguém com metade do meu tamanho me relembra “mas mãe não tinhas dito que este ano não podíamos acender a televisão de manhã nos dias de escola?” Disse? Ah pois disse! (exemplo prático de bipolaridade maternal matinal).

Outro exemplo… “Mãe posso ver telemóvel?” Não! Já disse várias vezes que o telefone faz mal às crianças! “Mas tu disseste se eu comesse tudo podia ver um bocadinho!” Disse? Ah pois disse! (bipolaridade maternal pós refeição).

Continuemos…” mãe posso fazer slime?” Não! Isso é pegajoso e vais sujar a cozinha toda!” Mas disseste no outro dia na loja do chinês que não era preciso comprar porque faziamos em casa!” Disse? Ah pois disse! (mas estou extremamente arrependida). Bipolaridade maternal na variante família feliz.

Com todos o respeito pelas mães verdadeiramente bipolares deste mundo e pelas suas famílias mas é assim que me sinto alguns dias. Talvez seja só uma variante leve mas está definitivamente a deixar a sua marca!!!

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